domingo, 20 de dezembro de 2015

E lá se vai mais um ano...


O ano de 2015, finalmente, está chegando ao final. Parece que vivemos mil anos em um, este ano. Vivi tantas coisas boas e muitas ruins, óbvio. Mas criei este blog. Contribuí com alguns sites. Conheci amigas feministas do Brasil todo. Conheci amigas feministas de Ilhéus e Itabuna e agora não me sinto só. Terminei um relacionamento. Fiz novas amizades. Irei colaborar com um coletivo de jornalismo independente. Farei parte de um projeto que levará feminismo a garotas de colégios públicos daqui da região. E, por fim, mais não menos importante, concluí o TCC com uma nota legal.

Diante disso, posso afirmar, sem medo algum, que vivi muitas coisas boas durante o ano de 2015. Mas, infelizmente, também me vi em momentos tristeza com motivos e outros sem motivos. Talvez essa seja a parte legal de ser humano: ter o emocional fluído e ficar sem saber o porquê de estar triste, mas saber que no dia seguinte você estará melhor. Hoje estou triste, porém amanhã estarei melhor. Pelo menos, no momento, é o que eu mais quero.


Só espero que em 2016 eu continue vivendo momentos maravilhosos e inesquecíveis. Pretendo colocar algumas metas e, espero voltar em 2017, lê-las e poder dizer que as cumpri. Assim, antes de findar o ano, voltarei aqui só para deixar a listinha de desejos para 2016.

sábado, 24 de outubro de 2015

Quando a internet se torna tóxica: #primeiroassédio



Não foi nada fácil estar no Facebook durante esta semana. Choveu notícia ruim, uma após a outra. Direitos das mulheres sob o próprio corpo sendo restringidos pelo Estado, crianças sendo hiperssexualizadas nas redes sociais, crianças sendo hostilizadas, homens fazendo "piadas" sobre estupro e pedofilia. Um verdadeiro show de horrores.

Foi Cunha conseguindo votar PL que é sinônimo de retrocesso no que diz respeito aos direitos das mulheres vítimas de estupro. Foi garota do MasterChef Jr sendo hiperssexualizada nas redes sociais, teve também garoto do mesmo programa tendo sua possível homossexualidade hostilizada e nenhuma pessoa é punida. E outro também foi vítima de ataques pedófilos feitos por homens e mulheres. E, no meio disso tudo, ainda teve vários homens fazendo piada da situação.

Diante da situação de assédios contra uma das participantes do MasterChef Jr, uma das integrantes do coletivo Think Olga decidiu criar a hashtag #primeiroassédio, que gerou cerca de 29 mil compartilhamentos no Twitter, com mulheres de diversas idades, que relataram como aconteceu seu primeiro assédio. Um número absurdo, porém longe da realidade, pois a realidade ainda é pior, caso analisemos a quantidade de meninas que são obrigadas a conviverem com o agressor, porque ele é o pai, irmão, tio, avô e por isso não pode expor o assédio/abuso. E ainda temos as meninas que sequer possuem acesso à internet, ou que possuem uma culpa tão internalizada que não sabem que foram vítimas.

Porém, diante de tudo o que aconteceu, as piadas foram o que mais me incomodaram. Vi vários homens relativizando os assédios e abusos, outros fazendo chacota e muitos outros atribuindo a culpa dos crimes às vítimas, tudo isso em nome do “humor”. É complicado passar por uma situação do tipo, saber que parte da família me culpou e ver que milhares de pessoas – a maioria homens – ainda têm o mesmo tipo de pensamento retrógrado e tão século XX. É triste ver cantor “famoso” esbravejando no Twitter que tudo isso não passa de uma grande brincadeira para os homens. De que a empregada dele, quando ele tinha 10, deixou que ele tocasse os seios dela. E lendo depois que o próprio cantor já foi acusado de estupro. Talvez, por isso, que pra ele seja tão engraçada toda a situação.

Crescer com um trauma desse tipo não é nada legal e muito menos engraçado. É perturbador saber e lembrar de coisas que lhe forçaram a amadurecer mais cedo do que outras garotas. É triste saber que sua mãe ainda se sente culpada por algo que ela não teve como prever, que ela nada pôde fazer para evitar. Nada disso é engraçado. Não é engraçado passar por um abuso ainda criança e ter de sofrer com assédios na rua mesmo antes de entrar na puberdade. Com 10, 11 anos, homens já me assediavam na rua e eu não sou exceção. Nós, mulheres, passamos por isso desde crianças e ainda há quem ache graça.


Por fim, eu já suportei e ainda suporto muito coisa nesta vida, mas “piada” sobre pedofilia e estupro é o cúmulo do absurdo e da falta de empatia com a dor alheia. É doloroso demais ler algo do tipo, mesmo sabendo que não foi direcionada a mim exclusivamente. Mas eu fui uma vítima, então a “piada” só funciona como um tiro, que só faz com que eu perceba que os homens, em sua maioria, ainda nos veem como algo inferior. Para a maioria deles, ainda não valemos nada.

domingo, 18 de outubro de 2015

Fé, amor, paz e sabedoria

Foto: Talita Barbosa

Uma pausa na conclusão do TCC para poder registrar em palavras a minha experiência ao entrar num terreiro de candomblé pela primeira vez em 22 anos de vida. Até tenho um avô pai de santo, mas, talvez, por não ser próxima dele que o meu contato com a religião não tenha se estreitado antes.

No ensino médio estudei muito sobre os orixás, lembro-me de ter feito um trabalho sobre algum deles e me deliciado com as histórias e os significados das coisas. Tenho uma queda por Iansã desde que a conheci e não sei explicar. Identifico-me e muito com a história, características e cores relacionadas ao orixá. Apesar de não ter um gênero definido, gosto de acreditar que Iansã seja uma mulher negra guerreira.

Pois bem, o estágio na Secretaria de Cultura sempre me proporciona coisas boas. Aprendi muito em pouco menos de um ano. Aprofundei meus conhecimentos em jornalismo e aprendi muito no que diz respeito à cultura da minha cidade e estado, também amadureci muito. No início do ano, pude participar do seminário da Renafro sobre religiões afro-brasileiras e saúde no que tange o direito da população de terreiro e o respeito a sua ancestralidade.

Mas, ontem, 17 de outubro de 2015, pude entrar num terreiro e perceber que tudo o que eu ouvi durante toda a minha vida não passa de uma caricatura mal feita e racista das religiões de matriz africana. Ouvi tambores tocar e o povo dançar alegremente ao poderem cultuar seus orixás sem serem importunados por cristãos fundamentalistas, que acreditam piamente que apenas a sua religião levará a salvação. E que, erroneamente dizem que Exu é o diabo e chamam os candomblecistas de macumbeiros de forma pejorativa.

Ao contrário do que eu costumava ouvir de alguns pastores oportunistas, o terreiro foi um lugar que emanou paz e sabedoria. O respeito à tradição que é passada oralmente, através dos séculos, num sistema hierárquico respeitado por todos os adeptos, é algo que deveria ser adotado por todos. A importância que é dada aos mães e pais de santos, o respeito a sabedoria ancestral, o respeito à natureza e tudo que dela é derivado.

Por fim, fiquei encantada com as cores, com os tambores, com os cânticos e com a alegria. Observei atentamente cada detalhe e não consegui enxergar a maldade que tanto falam por aí. Só consegui enxergar amor, respeito e muita sabedoria.


Axé pra quem é de axé

domingo, 20 de setembro de 2015

Sim, sonho que se sonha junto se torna realidade


Há alguns dias, presenciei uma cena que até então eu nunca tinha visto. Um mendigo estava sentado na rua pedindo dinheiro, até que um senhor se aproximou e jogou-lhe umas moedas. Só que as moedas caíram no chão e não deu tempo do mendigo pegar com as mãos. Ele foi lá e catou as moedas do chão mesmo, sem reclamar, nem nada. Mas, o senhor que jogou o dinheiro, ao perceber isso, retornou e lhe pediu desculpa por ter jogado as moedas no chão sem querer.

Tal atitude me deixou feliz, pois pude perceber que ainda há humanos bons e que se importam com o outro, independente se haverá um retorno ou não. O singelo ato daquele senhor, de retornar e pedir desculpa por algo que nem fez de propósito, me deu esperança de um futuro melhor e com menos ódio. Talvez eu até esteja sendo muito otimista, mas prefiro acreditar que ainda há um futuro cheio de amor, paz e respeito nos aguardando daqui uns anos. Um futuro onde pedir desculpa a um mendigo não será motivo de espanto. Talvez, quem sabe, um futuro em que sequer existam mendigos.

Enquanto esse futuro tão sonhado não chega, tentarei fazer da minha atual realidade um projeto piloto do futuro que eu quero. Pois, através de boas atitudes individuais, é possível transformar o mundo sim, pois o coletivo é feito de indivíduos. E, apesar de clichê, juntos somos e podemos ser mais fortes. Por fim, já dizia Raul Seixas “mas sonho que se sonha junto se torna realidade”.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Entre o desespero e a vontade de pintar o cabelo



O texto de hoje é bem pessoal, pois irei listar algumas coisas que aconteceram no mês de julho e agosto. E, apesar dos dias terem passado bem rápido, aconteceu bastante coisa. Vamos lá: fui roubada, na verdade, foi um furto. Alguém com uma mão incrivelmente “leve” abriu a minha bolsa e levou a minha carteira com quase todos os meus documentos. Por sorte, não tinha dinheiro dentro. Chorei e chorei muito após me dar conta do que tinha acontecido. Me senti burra, trouxa e por aí vai...

Logo depois começou a saga para tirar as segundas vias dos documentos. Para tirar a segunda vi do RG, é necessário acordar de madrugada, pegar uma senha e aguardar sabe lá até que horas para poder ser atendida. E, na verdade, eu estava com preguiça de ter que acordar cedo para ir fazer isso, porque os R$ 30 era o de menos (apesar da falta que faria rs). Pois bem, um amigo ofereceu ajuda (e eu quase não aceitava, porque sou tapada mesmo) e consegui fazer de grátis e sem fila. Entretanto, eu tenho um sério problema com essas coisas, porque eu lembro logo de que isso é corrupção e me sinto um ser humano terrível após olhar as pessoas que madrugaram e pagaram a taxa para obterem o serviço e eu não.

Continuando a saga... Fui convidada por uma amiga/conhecida (não somos tão próximas, apesar das afinidades políticas) para fazer parte da União da Juventude Socialista (UJS), pois, segundo ela, eu contribuiria muito com a frente feminista baiana do movimento. Fiquei empolgada, li algumas coisas e estou no aguardo de alguma reunião para entender como funciona. Logo depois fui convidada para participar da II Conferência Municipal da Juventude de Ilhéus. Irei mediar um eixo sobre direito à cultura, à comunicação e à liberdade expressão. Nunca mediei nada, mas estou empolgada e espero que a discussão gere bons frutos para a juventude ilheense.


Por fim, meu notebook pifou, morreu, foi dessa para uma melhor de vez. Tenho um TCC para iniciar, quer dizer, continuar. Pois comecei faz um tempo. E estou tentando controlar minha preocupação e ansiedade, por isso resolvi pintar o cabelo. Já escolhi a cor e vai ser roxo. Não vou pintar o cabelo todo, pois, infelizmente, existe preconceito e eu ainda preciso ter um estágio/emprego e dinheiro. De qualquer forma, cachinhos coloridos, me aguardem!

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Sobre pais e filhas e o gaslighting


O gaslighting, traduzido para o português, significa uma forma de abuso psicológico onde as informações são distorcidas e seletivamente omitidas, alteradas ou até mesmo inventadas, visando sempre o favorecimento do abusador. Desta forma, a vítima passa a duvidar de sua própria memória e sanidade. Resumindo: é quando alguém te chama de louca ou louco sem nenhum motivo para isso.

Tal abuso é bastante comum em relações amorosas, onde homens héteros cisgêneros enquanto ficantes, namorados e maridos manipulam a situação para que sempre tenham razão e a mulher seja a louca, desequilibrada e que vê coisas que sequer existem. Entretanto, o gaslighting, como outros abusos, pode acontecer em diversos tipos de relações, entre elas a de pai e filha. Assim, não é apenas o seu parceiro romântico que pode lhe acusar de louca, mas até mesmo o seu pai. A diferença é que a figura paterna pode fazer com que o abuso passe despercebido, por ser tratado como “coisas que os pais fazem”. E assim, o gaslighting passa a ser naturalizado e nunca questionado.

Na maioria das vezes, o pai abusador, quando casado, costuma também agredir a esposa. A chama de louca, exagerada e desequilibrada. Às vezes inventa histórias, inverte situações e chega realmente a confundir a companheira. A filha, também mulher, não passa imune aos abusos. Caso questione qualquer ação do pai, é considerada exagerada. Provando assim, que o gaslighting não é exclusividade de relacionamentos românticos. Mas pode estar presente em relações parentais e ser tão cruel quanto num namoro ou casamento.

Entretanto, por se tratar de um pai, questionar o abuso psicológico se torna algo praticamente inviável, já que vivemos numa sociedade machista, onde uma mulher que questiona não é levada a sério. E, na maioria das vezes, seu questionamento é menosprezado por conta do seu gênero. Embora questionar um abuso psicológico dentro do ambiente familiar seja algo praticamente impossível, não absorvê-lo é um caminho para que não haja sequelas no futuro. Basta lembrar-se de que você não é louca por estar chateada, apaixonada ou com vontade chorar. Pois, todos nós somos seres humanos, logo possuímos sentimentos e nossas emoções nem sempre podem ser controladas.


Caso você passe por este tipo de abuso e não tenha como buscar ajudar psicológica, procure um grupo de apóio feminista pelo Facebook e transforme a sua indignação em luta e milite, nem que seja virtualmente, e ajude a mudarmos o nosso futuro e de outras garotas. Porque nós, mulheres, apesar de sermos ensinadas de que os sentimentos, quando demonstrados, são coisas “de mulherzinha”, hoje aprendemos que, na verdade, são coisas normais de todo e qualquer ser humano.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O sentimento de impotência e a resistência na militância feminista


Ultimamente tenho lido várias matérias sobre feminicídios, sobre mulheres que sofreram agressões de seus parceiros ou foram estupradas. E o medo só aumenta. E junto com o medo o sentimento de revolta também. Mas o sentimento de impotência é o que mais de inquieta, me incomoda e me tira a paz.

A sensação de impotência quando me deparo com notícias em que mulheres foram brutalmente agredidas, violentadas ou mortas. Sinto-me impotente, pois eu sei que apesar de toda a minha militância e vontade de mudar o mundo, eu não pude evitar que mais uma mulher entrasse para a estatística. Números que só aumentam, porque todo dia uma mulher morre por causa do machismo. Todo dia uma mulher é agredida, violentada e estuprada por causa da misoginia. Todo dia eu tenho medo de ser agredida, violentada ou estuprada. E sinto-me mais impotente a cada dia que passa.

Ao ler matérias sobre mulheres que tiveram mãos e pés decepados por seus companheiros, que foram queimadas e mortas com requintes de crueldade, só consigo compreender o quanto o feminismo se faz necessário no século 21, em pleno ano de 2015. Pois ainda não alcançamos a tão sonhada equidade entre os gêneros. E, por isso, apesar de todo o sentimento de impotência que eu sinto, não desisto do feminismo. Porque ainda acredito que, através do movimento, conseguiremos as mudanças necessárias para que, talvez, no futuro vivamos com respeito à igualdade de direitos.


Quando alcançarmos tal igualdade, será possível não presenciarmos cenas de abuso, de machismo, de misoginia. Não assistiremos à programas policiais que julgam a mulher estuprada e relativiza o crime de estupro. Não leremos matérias que se preocupam mais em saber se a vítima perdoou o criminoso que lhe arrancou as mãos e os pés com golpes de facão. Talvez, um dia, tudo isso mude. E, caso não mude, ainda assim continuarei lutando para que a mudança aconteça.

domingo, 26 de julho de 2015

Precisamos falar sobre pedofilia



Nas últimas semanas, um dos assuntos mais comentados em páginas e grupos feministas, foi a declaração de um rapaz em que ele se assumia pedófilo. Logo em seguida, ele recebeu comentários em que as pessoas o xingavam e amaldiçoavam a sua vida. Mas, o mais interessante neste fato, foi a quantidade de pessoas em que o apoiaram e diziam apoiar a prática da pedofilia.

As pessoas que tentavam justificar o crime, diziam que esta “vontade” e “atração por crianças” não passa de um distúrbio e que se eles se tratarem, podem se curar. No entanto, poucos foram os comentários sobre as vítimas dos pedófilos. Sobre os tratamentos psiquiátricos e psicológicos aos quais nos submetem tentando achar a cura para as marcas que ficam.

Por isso, resolvi escrever sobre isso: pedofilia. Fui vítima do meu primo, quando eu tinha uns 4 ou 5 anos, e ele tinha entre 15 e 16 anos. Segundo a minha mãe, os abusos duraram cerca de um ano, até que ela e meu pai descobrissem. Ele abusava de mim e da minha irmã, que é dois anos mais nova do que eu. Por sorte, ela não carrega lembranças da época, já eu as possuo bem nítidas em minha memória. E, por mais que eu tente, elas não desaparecem. Houve épocas em que eu simplesmente apaguei tudo da minha mente, vivia como se nada disso tivesse acontecido; mas, logo depois, elas reaparecem e bem reais.

Ele nos ameaçava. E dizia que tudo não passava de brincadeiras. Que tudo aquilo era normal. Mas, curiosamente, ninguém deveria saber. Apesar das ameaças, a minha irmã, inocentemente, contou à minha mãe tudo. E neste momento a família foi dividida. Os familiares não acreditavam, diziam que tudo não passava de mentiras. Pois, crianças mentem. Mas meus pais insistiram e fomos à delegacia. Houve exames de corpo de delito e foram detectados os abusos. Houve condenação, mas não me recordo qual foi, até por que eu não entendia o que estava acontecendo direito na época.

Tive acompanhamento psicológico, pois meus pais temiam que eu não crescesse como as outras crianças. No entanto, eu cresci. Mas cresci fria e com poucas amizades. Cresci, mas sem conseguir demonstrar sentimentos e interesse na vida dos outros. Cresci, mas os traumas permaneceram. Hoje, eu entendo que a minha timidez durante a infância e a adolescência são reflexos do aconteceu comigo na infância. O que eu sou, hoje, é reflexo do aconteceu no passado. Sou uma pessoa normal de acordo com a sociedade cheia de padrões e estereótipos.

Mas as memórias que eu carrego me deixam inquieta. É complicado querer desabafar sobre isso e não ter com quem falar, pois são coisas horrendas e que nenhum ser humano normal iria gostar de ouvir. São coisas que por mais que eu tenha bons amigos e uma boa mãe, eu não posso compartilhar. São lembranças que irão morrer comigo, porque externá-las, apesar de eu saber que não foi culpa minha o que aconteceu, me provoca um sentimento de vergonha terrível.

Talvez seja daí a origem do meu feminismo, a minha ânsia por justiça, a minha vontade de mudar o mundo e salvar todas as pessoas que sofrem. Talvez seja daí a causa de eu tentar ser forte o tempo todo, mesmo chorando escondida no final do dia. Talvez...

Quero sumir


Sabe aqueles dias em que o chão parece ter se aberto e você caído no mais profundo abismo? Pois é, estou assim. Os problemas resolveram se juntar ao misto de sentimentos mal resolvidos e estão me enlouquecendo. Estou quase surtando. E não, não estou exagerando.

Não estou sabendo lidar com tantas coisas ao mesmo tempo. A vontade de voltar 18 casas no jogo da vida está maior do que nunca. Pois, esse negócio de ser adulta está me cansado. Além de a vida estar sacaneando e debochando da minha cara, toda hora que eu penso nas coisas que tenho para resolver, só sinto vontade chorar em posição fetal. E eu não sou assim. Quer dizer, até sou, mas não tanto.

Tanta gente ao meu redor e ao mesmo tempo sinto que não tem ninguém. Soa bem clichê, mas é o que eu ando sentindo. Talvez eu esteja precisando retornar ao médico e começar a tomar meus remedinhos para controlar a ansiedade? Espero que não, porque eu os odeio e sinto que posso ficar viciada. E eu não quero ser viciada em nada.

Enfim, quero parar de pensar nas merdas que eu estou sentindo/fazendo/imaginando. Quero voltar ao meu estado normal. E quero logo!



quarta-feira, 15 de julho de 2015

Escreva, Talita, escreva!


Hoje resolvi escrever sobre coisas que me deixaram feliz esta semana. Mas irei começar do começo (sorry pela redundância), para os leitores entenderem o porquê da alegria. Então, ano passado consegui um espaço dentro do site Obvious para escrever, mas o ambiente não parecia o certo para as ideias que me inquietam. Publiquei apenas um texto e desisti. Logo depois, criei este espaço e comecei a comentar sobre diversos assuntos que me alegram, irritam e que, às vezes, provocam mini-infartos. Os amigos e parentes leram quase todos estes textos, mas eu sentia que não tinha alcançado o público alvo ainda e precisaria de algo mais.

Algo que pudesse disseminar todas as ideias feministas e revolucionárias que moram dentro de mim. Um site/blog/jornal que pudesse tornar isso possível. No entanto, apesar de saber escrever de maneira decente, eu não consigo sentir firmeza e não consigo me afirmar escritora ou qualquer coisa do tipo. Acredito que o título não me caia bem, pois estou longe de ser uma Cecília Meireles, Clarice Lispector ou uma Chimamanda Ngozi Adichie brasileira. Mas o escrever, desenhar com as palavras e expressar o que sinto através dos textos me encanta, acalma e desperta o espírito revolucionário que há dentro de mim.

Pois bem, resolvi escrever outro texto e enviar para o site Blogueiras Feministas, que reúne textos de mulheres feministas sobre os variados temas pertinentes ao movimento. Digitei, digitei e digitei. Enviei o texto, cujo título é "O desrespeito a identidade de gênero no jornalismo brasileiro" e logo em seguida me arrependi e pensei: “Poderia ter feito melhor. Esse texto está horrível. Jamais irão publicar. Falta o acento grave no "a" que está no título”. Até que me responderam e confirmaram a publicação. A sensação de ter a sua escrita valorizada por um estranho é maravilhosa. Senti-me tão importante quanto a Clarice Lispector (sou exagerada mesmo) e fiquei muito feliz.

Então, na segunda-feira (13), recebi um e-mail com o link do texto postado e logo em seguida meu coração se encheu de alegria. Na verdade, a sensação é a mesma de tirar dez numa prova e receber elogio público do professor (a). Mas, a melhor parte não foi essa e sim quando eu vi que, a maravilhosa Maria Clara Araújo, militante transativista, compartilhou o texto em sua página no Facebook e ainda me elogiou. Quase infartei de tanta alegria. Pois, quem me conhece bem, sabe que eu sou fã assumida dela por vários e vários motivos. E, ter o seu trabalho reconhecido, é bom demais.

Agora à noite, vagueando pela linha do tempo no Facebook, me deparo com outro compartilhamento do meu texto. A também militante, Daniela Andrade, o compartilhou. Apesar de ter atingido uma parte do público-alvo ao qual o texto é direcionado; acredito que obtive sucesso. Resta que jornalistas e estudantes de jornalismo o leiam e se sensibilizem, pois não basta apenas tornar comum a informação, o social tem de estar em acordo e interligado.

Por fim, hoje (15), ao acordar às 6:30h, esperando a minha mãe chegar de sua viagem à Salvador; peguei o celular (vício maldito), loguei em minha conta no Facebook e dei de cara com um texto da Renata Corrêa, no site Lugar de Mulher, sobre a importância de escrever. As palavras que passavam pelos olhos pareciam ter sido digitadas para mim, apenas para mim. Ela escrevia, mas sempre duvidava de sua habilidade como escritora, apesar de todos a reconhecerem como tal profissional. Ao terminar de lê-lo, percebi que aceitar-me como escritora, talvez, seja um processo longo e árduo, mas não tão necessário. Aceitar os elogios e as críticas me farão uma profissional melhor, mesmo que a escrita não se torne a minha profissão. O farei por puro prazer. Pois, disseminar ideias e pensamentos que podem transformar o mundo num lugar melhor me deixa feliz.


segunda-feira, 29 de junho de 2015

O casamento civil igualitário e o falso moralismo cristão brasileiro



Na última sexta-feira, dia 26, a Suprema Corte dos EUA aprovou o casamento civil igualitário (por favor, não é casamento gay, ok?) em todos os 50 estados americanos. A decisão foi inédita e entrou para a história. E, claro, eu fiquei alegre junto.

Mas, tinha que existir os cristãos fundamentalistas e homofóbicos para tentar – sim, tentar, pois não conseguiram êxito – acabar com a alegria alheia e pregar o cristianismo para quem não pediu. Quando eles irão entender, que a opinião deles não interessa? Não quer casar com uma pessoa do mesmo sexo? Não case! É tão simples.

Agora farei algumas considerações sobre o versículo de Levítico que num instante foi lembrado por muitos amigos e amigas que estão adicionados em meu perfil no Facebook. Vejamos: "Não se deite com um homem como quem se deita com uma mulher; é repugnante”, capítulo 18, versículo 22 do livro de Levítico.

Não vou discorrer sobre ser pecado ou não, porque ando cansada disso. Mas, colocarei outros versículos do mesmo capítulo só para deixar explícito o falso moralismo de quem reclama dizendo que é pecado. Vamos lá, versículos 19 e 20: "Não se aproxime de uma mulher para se envolver sexualmente com ela quando ela estiver na impureza da sua menstruação. Não se deite com a mulher do seu próximo, contaminando-se com ela”.

Preciso comentar algo sobre? Não ter contato sexual com mulher menstruada em pleno século XXI? Whaaat? E sobre a traição, com tantos escândalos envolvendo padres, pastores casados e mulheres casadas, melhor poupar comentários. Pois daria um livro se eu fosse discorrer sobre cada caso.


Então, se for para seguir Levítico, por favor, siga o livro todo. Esse negócio de segmentar os mandamentos ao bel prazer não está mais convencendo. Contexto histórico existe e deve ser levado em consideração.

terça-feira, 23 de junho de 2015

E a transfobia fez mais uma vítima

Laura Vermont

Outra travesti morreu. Foi morta pela transfobia que assola a sociedade hipócrita brasileira. Morta pela intolerância. Morta por todos nós que julgamos de “diferentes” os que são iguais a nós. Laura Vermont foi morta por policiais militares, que deveriam lhe prestar socorro e proteção. Arrancaram-lhe o direito de ser quem ela era.

É impossível não me indignar com essas situações, infelizmente corriqueiras, mas que a justiça e os políticos fingem não existir. Mais uma vida foi tirada de forma covarde e violenta. Nada justificará os murros, chutes e tiros disparados contra Laura num momento em que ela precisava de proteção.

Laura foi espancada por um grupo de homens, que provavelmente, acharam que poderiam exterminá-la da face da terra e contribuir, assim, para um mundo melhor. Os PMs, segundo o Portal R7, foram chamados para protegê-la e só a espancaram mais e dispararam tiros contra ela. Depois, como se não fosse o suficiente, mentiram descaradamente sobre o fato quando se apresentaram à Polícia Civil.


O que mais me incomoda e me revolta é, que contra essas atrocidades, os líderes religiosos não se revoltam. Campanhas pedindo o fim da violência contra travestis não são sugeridas no Facebook. Sentem-se incomodados com a imagem de um travesti numa cruz representando o sofrimento que elas passam todos os dias, mas a morte cruel de uma travesti não comove. Não incomoda. Torna-se estatística ou não.

domingo, 21 de junho de 2015

Os Filhos da Mata – A Luta da Reserva Pataxó da Jaqueira

Os Filhos da Mata - A Luta da Reserva Pataxó da Jaqueira


Na última sexta-feira, 19, tive a oportunidade de assistir ao documentário “Konehop Upu Ibá (Os Filhos da Mata) – A Luta da Reserva Pataxó da Jaqueira”, produzido pelo coletivo En Cleta Vamos, formado por quatro amigos latino-americanos, que viajam pelo Brasil de bicicleta exibindo filmes relacionados a nossa cultura.


O documentário retrata a luta dos índios Pataxós, que vivem na Reserva da Jaqueira, localizada a 13 km de Porto Seguro. Mais 30 famílias Pataxós vivem dentro da reserva, que escolheram para preservar a cultura indígena viva e cuidar dos 827 hectares de Mata Atlântica do local.


Através de entrevistas com diversos índios, o filme aborda as causas e as consequências do massacre que ocorreu ano 1951, quando os índios lutaram por suas terras e foram mortos de formas cruéis. Além de exporem o processo burocrático de homologação e demarcação do território indígena, e a criação da escola indígena dentro da aldeia, que busca preservar o idioma e os costumes dos Pataxós.

As tradições e costumes dos índios são contados através dos olhares de diversos índios, desde crianças até os mais idosos, onde cada um expõe a beleza em ser índio Pataxó e a importância em se preservar a sua cultura.

O documentário enfatiza também a importância das mulheres na construção da história da comunidade indígena na Reserva da Jaqueira, pois há diversas mulheres líderes e que possuem direitos e deveres iguais aos homens indígenas. Assim, mostrando a existência da igualdade entre os gêneros dentro da reserva.


Outro aspecto importante, que também é retratado no documentário, é o racismo contra índios e o preconceito contra a cultura indígena, que mata e machuca até hoje. Pode ser em menor quantidade do que quando o Brasil foi “descoberto”. No entanto, a dor e as cicatrizes são tão cruéis quanto as de mais de 500 anos atrás.


O filme aborda também como o etnoturismo surgiu na comunidade, através da necessidade de se mostrar às pessoas a cultura indígena e também como opção de geração de emprego e renda dentro da reserva. O etnoturismo dentro da Reserva da Jaqueira consiste em mostrar aos homens e mulheres “civilizados” a cultura indígena, suas tradições, costumes e rituais.

Por fim, o documentário é lindo. Assistir ao filme foi um choque de realidade, pois pude perceber que os índios sofreram e ainda sofrem com problemas que sequer deveriam existir. A história do Brasil começa com um descobrimento que nunca existiu, para dessa forma, tornar legítimo o roubo das terras indígenas pelos portugueses e outros imigrantes.

sábado, 20 de junho de 2015

A militância feminista no ciberespaço

Beyoncé


Há ainda quem acredite que ser feminista é sinônimo de ter decorado cada palavra que existe no livro O Segundo Sexo, da feminista e filósofa francesa, Simone Beauvior. No entanto, há quem discorde disto. Até porque ninguém tem obrigação de ler livros e artigos acadêmicos sobre o feminismo para se reconhecer como uma feminista. Pois, hoje, há um enorme campo de informações, que são possíveis de serem encontradas on-line.

Logo, não se faz necessário ler diversos livros sobre teorias feministas para se tornar uma feminista e então acreditar na igualdade política, social e econômica entre homens e mulheres.

Desmerecer um movimento, que graças à internet, alcança milhares de mulheres todos os dias, não é uma estratégia inteligente. Pois, os diversos sites e comunidades de militância feministas, que existem são chamadas de cibercidades que, dentro da comunicação, são a transposição das cidades reais para o ambiente virtual. Logo, os movimentos sociais que atuam no mundo virtual são tão válidos quantos os que atuam nas cidades físicas.

Para entender como funciona o processo de troca de informações e a militância na internet, é necessário entendermos alguns termos, entre eles: cibercidade, cibercultura e a interatividade.

O filósofo francês, Pierre Lévy (1999) define o termo ciberespaço não apenas como a infraestrutura material da comunicação, mas também como o universo oceânico de informação que ela abriga. Desta forma, o ciberespaço funciona como uma transposição da vida social contemporânea, que são reestruturações do mundo real para a o ambiente virtual.

A emergência do ciberespaço é fruto de um verdadeiro movimento social, com seu grupo líder (a juventude metropolitana escolarizada), suas palavras de ordem (interconexão, criação de comunidades virtuais, inteligência coletiva) e suas aspirações coerentes (LÉVY, 1999, p.123)

Pois, da mesma forma que há movimentos feministas nas cidades físicas, das mais variadas vertentes, no campo digital, há também blogs, comunidades e grupos de discussões feministas.

Já a cibercultura pode ser definida como características de determinados grupos dentro do ciberespaço, onde tais movimentos se agrupam conforme os interesses, que os indivíduos que o compõem possuem em comum. “Quanto ao neologismo "cibercultura", especifica aqui o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço” (LÉVY, 1999, p. 11).

Para explicar a interatividade é necessário, antes de tudo, defini-la. E, de acordo com a sua definição mais simples, encontrada no dicionário Aurélio, a interatividade é a capacidade que um sistema operacional ou máquina possui de permitir interação ou até mesmo ser interagido.

Para Pierre Lévy (1999) o que melhor descreve a interatividade é a possibilidade, crescente com a evolução dos dispositivos técnicos, de transformar os envolvidos na comunicação, ao mesmo tempo, em emissores e receptores da mensagem.

Com a popularização dos computadores, notebooks e smartphones entre a sociedade, se torna possível participar da militância feminista no ambiente virtual, sejam com opiniões divergentes, com acréscimo ou até mesmo novas informações.

Nesse novo contexto, o emissor não emite mais mensagens, mas constrói um sistema com rotas de navegação e conexões. A mensagem passa a ser um programa interativo que se define pela maneira como é consultado, de modo que a mensagem se modifica pela medida em que atende às solicitações daquele que manipula o programa. (SANTAELLA, 2004, p. 163)

A interatividade nas redes é regida pelo principio de que é possível ser mutável, efêmero, colaborador e não apenas espectador, como explica Santaella (2004, p.166). Logo, o ciberfeminismo, transposto para o ambiente virtual possui o mesmo valor, que o feminismo que milita nas cidades físicas. As mulheres que militam virtualmente não são apenas espectadoras passivas, mas participam ativamente do movimento através da colaboração e compartilhamento e ideias.

Entretanto, a desigualdade social ainda é enorme no Brasil e, como consequência, mulheres majoritariamente negras, analfabetas e da periferia não têm acesso à internet. Pois, as barreiras sociais e econômicas impedem que o ciberfeminismo cheguem até elas. Logo, a importância da militância feminista na cidade física está em descentralizar o movimento da academia e ir de encontro às mulheres que não são alfabetizadas, não possuem graduações. Só possuem o desejo de serem livres.


REFERÊNCIAS
SANTAELLA, Lúcia. Navegar no Ciberespaço: o perfil cognitivo do leitor imersivo. São Paulo, Paulos, 2004.
LÉVY, Pierre. Cibercultura.(Trad. Carlos Irineu da Costa). São Paulo: Editora 34, 2009.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Da série: racismo existe

Dany Braga em campanha para a Riachuelo

A nova coleção primavera/verão da Riachuelo é inspirada no Marrocos, país localizado no extremo noroeste da África. Até então tudo bem. Nada novo sob o sol. Mas, a loja não se atentou aos detalhes contidos na fotografia que postou no seu perfil do Instagram para divulgar a coleção: a modelo embranquecida, com lentes azuis e um turbante que não faz parte das roupas típicas que usam no Marrocos, mas sim de países da costa oeste e sul do continente africano.

Dany Braga com sua cor natural e sem lentes azuis

O tiro no pé que a Riachuelo deu, foi certeiro. Minutos após a publicação da imagem, mulheres negras comentaram explicando o porquê de repudiarem a imagem. Coisas que nem precisariam ser explicadas, caso os publicitários contratados pela loja pesquisassem sobre a cultura africana corretamente.

A apropriação cultural há alguns meses atrás, não passava de besteira para mim, mas ao começar estudar sobre o assunto, pude perceber que a cultura negra está sendo apropriada e não é com boas intenções. A cultura afro é marginalizada desde sempre. Professores se recusam a ensiná-la nas escolas, pois afirmam que é coisa do diabo.

Mas, então, por que usar turbante pode? Por que trançar um cabelo liso pode? Por que encrespar um cabelo naturalmente liso pode? O turbante, assim como outros artigos, faz parte da cultura negra e é considerado um símbolo de resistência, pois as escravas eram proibidas de mostrar seus cabelos “ruins”. Os brancos não mereciam ver negras com seus cabelos crespos. Era uma afronta. Mas, a moda que diz que o padrão de beleza é branco, se apropria de um símbolo de resistência da cultura negra e vira tendência.

A partir do momento que um determinado objeto é inserido na moda vigente, ele vende. Gera lucros e empresas - as mesmas que rejeitam negros nas entrevistas de emprego - crescem. A apropriação cultural, que chamam de moda e homenagem, vai muito além do uso ou não turbante por uma mulher branca. É questão de conscientização. Basta se questionar: por que numa pessoa negra o turbante é "coisa de macumbeiro" e numa pessoa branca é moda?

"Homenagem" da grife Adriana Degreas no SPFW 2012

Moda passa. A resistência em ser negro persiste. Homenagear a cultura afro se apropriando de símbolos não é homenagem. Soa apenas como ironia. Nada além de ironia. O sofrimento do negro escravo e o sofrimento do negro que, ainda hoje, vive à margem da sociedade e sofre racismo todos os dias, não se resolve com homenagem, mas sim com respeito.


quinta-feira, 11 de junho de 2015

E a culpa ainda, infelizmente, é da vítima

Geysi Arruda com o vestido que usou para ir à aula na faculdade

A aula de ontem (10) poderia ser apenas mais uma, mas não foi. Pois, uma professora convidada foi nos ensinar alguns mecanismos úteis para a interpretação de textos em provas do Enade, ENEM e de concursos. E, logo em seguida, nos explicou sobre ética, moral e cidadania.

Seria apenas mais uma aula, se os discursos machistas que eu e algumas colegas fomos obrigadas a ouvir passassem despercebidos. Mas não passaram. O primeiro que logo me chamou atenção foi quando ela disse que, mulheres que não têm um grau de cultura elevado são as que cometem aborto no Brasil. Como assim? Ricas também abortam, no entanto, a diferença é que elas podem pagar por abortos seguros e não entram para a estatística de mulheres mortas em decorrência de abortos clandestinos.

Mas não parou por aí, logo depois ela deu um exemplo do que é ética. Segundo ela, é ético não irmos com roupas “que chamem muita atenção” para a faculdade, pois poderemos atrapalhar a aula tirando a atenção dos homens e ainda deu o seguinte exemplo: uma aluna chega à aula do curso de enfermagem, linda e maravilhosa, os seus colegas homens-cis-héteros-machistas começam a assediá-la e a professora (a mesma da minha aula) pede para a aluna se retirar da sala e ir trocar de roupa. Para, enfim, dar continuidade ao assunto, pois os seus alunos não estavam se concentrando.

Como se não fosse ainda o suficiente, ela nos disse que informou à aluna que ela não era Geysi Arruda para chamar a atenção da sala e atrapalhar a aula. Logo, ela ainda deixou implícito que acredita que a Geysi e todas as mulheres que são assediadas são culpadas, pois poderiam evitar tudo isso caso se vestissem adequadamente e não despertassem o "instinto masculino" que é praticamente incontrolável, porque homens são assim. ~ironia~

Senti-me impotente, pois eu não tinha como interromper a aula e dizer à professora que tudo aquilo não passava de discursos machistas, que os homens utilizam para nos manipularem e nos reprimirem. Senti-me impotente, pois não pude dizer à ela que somos livres e que os homens devem nos respeitar. 

sábado, 6 de junho de 2015

Família é quem a gente escolhe para amar


Sobre a família "tradicional" brasileira: nunca tive. Não, meus pais não são separados. No entanto, desde pequena assisto às brigas e mais brigas por causa das diversas traições do meu pai. Minha avó paterna nunca foi casada, pois ela sempre foi a amante. Tenho tios que sequer sabem o nome do pai. Tenho avó que já foi traída. Casou de novo e foi traída novamente.

Incomoda-me essa história de a família ser apenas a junção de um homem e uma mulher, pois eu cresci vendo o diferente dessa afirmação: Vi minhas tias criarem os filhos sozinhas. Vi primas serem abandonadas pelo pai. Vi tio que não assumiu a filha. Então, de onde esses deputados tiraram esse conto de fadas, de que a família só é formada por homem e mulher?

Não acredito no conceito de família ser baseado exclusivamente na união de um homem e uma mulher. Acredito no amor. Acredito em pessoas que podem criar crianças com dignidade, amor e respeito. Acredito que adotar ou decidir engravidar é um ato de amor. Amor é algo sobrenatural que transcende qualquer denotação num dicionário. Por isso, a família não tem como ser definida por um estatuto.

Em anos de aprendizado baseado no cristianismo e com a inserção no feminismo, adquiri conhecimentos e desconstruí diversos preconceitos. Aprendi que “família é quem a gente escolhe pra viver”, como diz a música da banda O Rappa. Por isso, amar deveria ser a única exigência para poder constituir uma família.


quarta-feira, 27 de maio de 2015

O uso de roupas curtas e o domínio sob o próprio corpo



Há quem ache que todas as mulheres que usam roupas curtas estão pedindo para serem assediadas, tocadas ou, na pior das hipóteses, estupradas. Numa sociedade machista, infelizmente, ainda é comum que muitos acreditem que a vida de uma mulher gira em torno de chamar a atenção de um homem.

Por causa de discursos machistas iguais ao citado acima, várias mulheres são estupradas no Brasil e os estupradores dão a mesma desculpa: “ela estava pedindo”; “estava usando roupa curta”; “ela me seduziu” e por aí vai... A naturalização do assédio e do estupro começa quando um homem diz que a mulher de roupa curta está querendo chamar a atenção dos homens, pois é do instinto masculino a culpa dos homens assediarem e estuprarem as mulheres.

As desculpas são ridículas, mas a culpa nunca é do agressor, pois a roupa da mulher estava “pedindo” por aquilo. O interessante é que nunca vi homens serem assediados na rua por que estavam usando shorts curtos ou estavam sem camisa, pois eles são homens. Eles podem. Nós, mulheres, não podemos, pois é vulgar mostrar o corpo. É coisa de mulher puta, vagabunda e vadia querer sair com uma minissaia à hora que quiser.

Simone Beauvoir (1970) afirmou em seu livro O Segundo Sexo, que “o lugar da mulher na sociedade é sempre eles que estabelecem”. E isso ainda é real em nossa sociedade pós-moderna e tecnológica. Os homens estabelecem quais as mulheres são de “verdade” e quais servem “para casar”. A mulher que usa roupa curta é a puta, segundo a estatística dos machistas, mas a que usa saias longas também sofre assédio quando sai. A lógica é imprecisa, mas o machismo prevalece.

A desconstrução do machismo é necessária. A mulher pode e deve usar o que quiser. E, quando ela assim fizer, não deve ser julgada como alguém que “está pedindo” atenção dos homens. Pois, acredite, ela não está.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Namorar uma feminista?

Frida e Diego s2
Certa vez, um colega de trabalho me perguntou como era para o meu namorado namorar uma feminista. E eu pensei: “WTF?”. E refleti tentando achar uma resposta e não encontrei, pois, até onde eu sei, sou uma mulher como qualquer outra e nossa relação é como de qualquer outro casal que se ama e se respeita.

No entanto, me pus a pensar se o problema era o fato de eu problematizar todo e qualquer machismo que eu presencio, seja na faculdade, trabalho ou em ambiente familiar; e, sempre discutir com homens o porquê de tal fala ser machista ou não. Acredito que ainda hoje, os homens, não estejam “acostumados” a verem mulheres emponderadas o suficiente para irem contra todas as falas machistas as quais somos obrigadas a ouvir todos os dias.

Hoje, apesar de todo machismo existente – sim, ele ainda existe -- somos livres para expressar a nossa opinião e isso incomoda. Assim que você expõe o machismo de algum homem, logo, você é tachada de chata, birrenta etc. Mas, é justamente para isso que o feminismo existe: desconstruir estereótipos machistas diariamente; dar um tapa na cara do patriarcado e provar que ser mulher é lindo para o misógino.

Voltando ao meu relacionamento: meu namorado não é feminista, pois entende que esta luta não é dele; mas, nem por isso ele é machista. Muito pelo contrário, ele tem total respeito por mim enquanto mulher, somos amigos, companheiros e confidentes. E, além disso, nos amamos. Acredito que isso seja o suficiente.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Por que uma gorda feliz incomoda tanto?


A revista Elle Brasil surpreendeu a todos na última quinta-feira (30) ao anunciar a sua capa da edição de aniversário: a jornalista e blogueira Juliana Romano enrolada apenas num casaco Prada e usando saltos da Miu Miu. A proposta da edição foi “você na capa” e nas revistas físicas ao invés de uma capa com uma modelo magérrima, encontramos um espelho para nos vermos e sermos A CAPA.

A Ju (me sinto íntima rs) foi capa da versão para tablet, mas nem por isso o estardalhaço por causa da sua foto foi menor. Foi possível ler comentários onde as mulheres se sentiram felizes em saber que uma revista se importou em colocar uma pessoa com corpo real na capa – já que não houve uso de Photoshop no corpo da Ju. E, foi notória também, a quantidade absurda de comentários que acharam a capa da revista um incentivo a obesidade (sim, é absurdo, mas eu mesma li).

O interessante é que, quando são modelos magérrimas ocupando as capas de quase todas as revistas de moda e beleza do mundo, a maioria das pessoas não se importa com a saúde da população mundial, já que seria um incentivo a bulimia e anorexia, usando a mesma lógica. Mas, é muito mais fácil atacar a minoria, não é?


A minha opinião sobre a revista é: eu já achava a Ju linda e poderosa; agora ela está linda e poderosa na capa de uma revista de circulação nacional. Aceita, sociedade! Se aceitar como você é não é crime, assim, como não gostar de algumas coisas em seu corpo também não é. Mas, se amar primeiro é necessário para que possamos amar as outras pessoas. E de acordo com os comentários que eu li só concluí uma coisa: tem muita gente se odiando pelo Brasil afora...

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Cordéis feitos por mulheres para outras mulheres

Todos os cordéis de Jarid Arraes

Ano passado, quando fui selecionada para participar do I Seminário Nacional Mulher e Cultura em Salvador, pude conhecer a Salete Maria, cordelista e professora da UFBA. Ela recitou alguns de seus cordéis feministas e eu me apaixonei. Mas, quando ela me deu alguns de presente, aí me apaixonei em dobro e desde então a acompanho pelo blog Cordelirando.

Mas não são sobre os cordéis da Salete Maria que eu vou escrever e sim sobre os cordéis da Jarid Arraes. Uma mulher negra, jornalista, feminista e dona do blog Questão de Gênero no Portal Fórum. Seus cordéis me encantam -- apesar de nunca ter lido nenhum -- pois trazem problemáticas do cotidiano da maioria das mulheres.

Foto: Jarid Arraes
Só que nesta última semana, ela lançou cordéis biográficos de mulheres negras que fizeram história no Brasil, mas que não são lembradas e muito menos reconhecidas pela história. Enfim, eu comprei três cordéis com ela, mas só dois são biográficos. São eles: "Dandara dos Palmares", líder do quilombo dos Palmares e companheira de Zumbi; "Carolina Maria de Jesus", negra, favelada e escritora, autora do livro “Quarto de Despejo – Diário de Uma Favelada”; e “A Mulher que Não Queria Ser Mãe", que muito me interessa pelo simples fato de eu não desejar ser mãe até momento.

Pois bem, assim que meus queridos e aguardados cordéis chegaram, lerei e farei uma breve resenha sobre cada um.

domingo, 19 de abril de 2015

Pobre por opção?


A professora de Telejornalismo II recomendou que a turma assistisse ao documentário Notícias de Uma Guerra Particular, para que discutíssemos em sala sobre os aspectos jornalísticos ou não do filme. Mas, como era de se esperar, a discussão foi além das técnicas e teorias da comunicação e levou a temas como redução da maioridade penal, racismo, pobreza e meritocracia.

Apesar de chocada com a quantidade de colegas que defendem a redução da maioridade penal no Brasil com base nas notícias prontas dos grandes veículos de comunicação, tentei entendê-los e não voar na garganta de nenhum. Mas, a discussão foi ficando mais tensa do que já estava e aí alguém falou sobre o fato de ser negro, pobre e favelado não influenciar em nada na vida profissional da pessoa.

Explicarei melhor: segundo alguns colegas, nascer preto, pobre e na favela não é desculpa para não estudar e não ter um emprego. Claro, é fácil falar quando você e nenhum parente seu passou fome. Mas eu nasci preta, pobre e no morro. Eu tenho pais que ficaram sem comer para que eu e minha irmã tivéssemos o que comer. Eu tenho um pai que ia para o colégio sem comer, porque queria estudar. Eu tenho um pai que é o único com ensino médio entres seus irmãos e primos, e é o único funcionário público da minha família até então.

Eu tenho parentes que tiverem de escolher entre estudar ou ir trabalhar para ter o que comer. E isso é direito básico garantido a qualquer ser humano, mas afinal, só não estuda e não trabalha quem não quer, não é verdade? Acho fácil uma pessoa que nunca passou por dificuldades financeiras, no conforto da sua vida, falar sobre ser fácil ou não a vida de quem já nasce destinado a ser marginalizado pela sociedade, que excluí pobres e negros sem dó alguma.

Ah, vale lembrar ainda: sou a primeira da minha família a entrar numa universidade e serei a primeira a concluir a graduação. Não foi fácil, não é fácil e sei que não será fácil. Eu quero mais: quero outro curso, agora numa universidade pública; quero um mestrado; quero um doutorado e quero ser a próxima funcionária pública da minha família.

Eu tenho histórias de “sucesso” na família, mas a proporção é desproporcional (desculpem a redundância). Para cada dez pessoas sem estudo, apenas uma estuda. A sociedade não é justa com os pobres e é muito mais injusta quando o pobre é negro. Não sejamos hipócritas, meu povo! Racismo e preconceito contra pobres existem e eles estão tão internalizados, que passam despercebidos pela maioria de nós.

Ninguém gosta de ser pobre. Ninguém gosta de passar fome. Ninguém gosta de não ter como presentear os filhos ou filhas no Natal. Ninguém quer nascer pobre. Ninguém quer passar a vida sendo pobre e morrer pobre. Desta forma, convenhamos que não é fácil deixar de pobre, ok? Até porque, se fosse tão fácil assim, não existiriam pobres no Brasil, não é? Basta usar a cabecinha com o cérebro lindo que Deus deu e pensar.


Enfim, não quero defender quem se acomoda com a vida a qual foi destinado, mas afirmar, sem conhecimento nenhum de causa, que nascer preto e pobre não é motivo para não estudar e não conseguir “bons empregos” ao longo da vida, eu não admito. Pois é sim! Agora, quero ver alguém subir o morro e conhecer a vida dos pobres de verdade. Mas, julgar é mais fácil e sempre será.